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Na crise e sempre, a UNE tem o mesmo lado

Por Isaac Ribeiro | Categoria(s): Artigos | 22/08/2005 às 19:38

Ueltom Lima Gomes*

Nos seus 68 anos de vida, a União Nacional dos Estudantes se firmou como porta-voz das lutas contra as injustiças sociais, pela defesa de um Estado laico que cumprisse um programa democrático e popular. Desde a luta contra a opressão do governo varguista, pela implementação de uma universidade livre, formadora de ciência e de opinião crítica, passando pelos duros embates contra a ditadura militar e contra a privatização da educação feita durante a década de 1990, a UNE não se furtou ao papel de entidade de luta e de mobilização social.

Nas últimas semanas, a grande mídia aumentou o tom e o conteúdo de seu ataque aos movimentos sociais. A cada dia esses veículos se mostram mais dissimulados e caluniosos.

Tentam tachar a UNE de “chapa branca”, defensora do governo Lula e, ao mesmo tempo, insistem em esconder nossas posições contra a corrupção e a política econômica.

Algumas denúncias ficaram comprovadas. A política do pacto social fracassou, as alianças do governo deram espaço para Roberto Jefferson, a máquina eleitoral mostrou a cara de Marcos Valério, que não é novo no ramo, e a política econômica inviabiliza políticas sociais, fortalece a hegemonia do capital financeiro sob a economia nacional e nunca foi de transição.

Uma constatação importante é de que o governo Lula não é o governo da direita, não importa o que faça. O conservadorismo, a direta e a elite do país têm partido e candidato próprio. E mais, a elite – os ricos – não nos tolera, não toleram a UNE e seus parceiros na Coordenação dos Movimentos Sociais, porque sabem da força que temos e, principalmente, porque estamos em lados opostos. Escrevo isso porque, num cenário conturbado como esse, é sempre bom localizarmos onde a direita está para não passarmos por perto.

Ainda assim, entre a militância do movimento estudantil, muita confusão foi gerada. Alguns, cooptados, mudaram de lado. Outros voltaram pra casa e abandonaram a luta, e não deixam de ter suas razões. Outros ainda tentam construir novas alternativas dentro da esquerda, mas se pautam e se confundem com a direita.

Ouvimos alguns afirmarem muitas vezes que hoje não existe alternativa à esquerda do governo Lula. Que isso significaria a volta de FHC, José Serra ou Alckmin. Isso não é verdade. Existe sim alternativa a esse governo que aí está. Acontece que, no entanto, essa alternativa passa pelo próprio governo Lula, com uma alteração radical no seu rumo, com um programa realmente democrático e popular e que faça a ruptura necessária com o neoliberalismo.

Se por um lado a permanência do governo Lula, assim como está, pode desmoralizar a esquerda do país, por outro, a derrota dele representa a volta da direita realmente orgânica, que com certeza virá mais radical e forte do que antes vista, aprofundando o projeto neoliberal, privatizando tudo o que for possível, voltando ao desmonte da máquina do Estado, criminalizando os movimentos sociais e tentando de todas as formas inviabilizar a alternativa ao capitalismo na América Latina impulsionada por Hugo Chávez na Venezuela, onde o Brasil tem um papel estratégico.

Nesse cenário, a UNE não vai se furtar ao seu papel histórico. A UNE hoje não será diferente do resto da sua história. Continuaremos a ter lado na sociedade e o nosso lado sempre foi claro, é junto aos trabalhadores e trabalhadoras, junto àqueles que se forjaram na luta contra o capitalismo opressor. Vamos denunciar e combater nossos inimigos, derrotar o neoliberalismo dentro e fora do governo Lula. Iremos para as ruas dizer que superávit primário não é restaurante universitário nem tampouco vagas nas universidades públicas; juros não constroem moradias estudantis e responsabilidade fiscal é guardar o rico dinheiro para pagar os banqueiros. A UNE dirá em alto e bom som que se o “mensalão” incomoda muita gente, o Meirelles incomoda muito mais.

Sabemos que um dos sentimentos que toma conta de parte da militância do movimento social é de que aos poucos estamos sendo derrotados pela direita mais orgânica do país sem ao menos ter tentado aplicar um programa que polarizasse, que aprofundasse na democracia, na participação popular, no investimento social, invertendo a lógica da política econômica de FHC, e que mudasse a estrutura política do país.

Por isso mesmo, a UNE, que legitimamente com os estudantes e com os outros movimentos sociais construiu a eleição de Lula, não será derrotada agora. São 68 anos de luta deixando bem claro de que lado sambamos e contra quem apontamos nossas armas. Não desistiremos agora, não nos entregaremos e tampouco seremos derrotados por conservadores sem ao menos ter tentado, sem antes exigir que o governo Lula realmente polarize, sem antes forçar que o governo radicalize nas transformações necessárias para o país e faça uma reforma política que realmente ataque não só os corruptos, mas também os corruptores, que inverta a lógica atual dos financiamentos de campanha e diminua o poder e a influência da elite brasileira.

A briga está apenas começando. Vai ser preciso muita mentira pra diminuir o tamanho das mobilizações da UNE, pois, daqui pra frente, elas só irão aumentar. Se por um momento o ataque do neoliberalismo conseguiu enfraquecer os movimentos sociais, por outro, a atual conjuntura coloca para os estudantes um desafio à altura da história da UNE. Nossa força não está nas reuniões e nos “grandes” acordos. Nosso lugar não é o gabinete nem a sala com ar-condicionado e tapetes verdes aveludados. Nosso lugar continua sendo o mesmo, nas ruas, nosso lado continua o mesmo, com os de baixo.

Quanto mais disserem que a UNE é “chapa branca”, mais alto iremos dizer que a UNE é contra a corrupção, contra a atual política econômica e também contra a hipocrisia da direita e da elite brasileira que tenta de todas as formas derrotar o governo Lula e se perpetuar no poder.

Ueltom Lima Gomes é 1º Diretor de Relações Internacionais da UNE e membro da Coordenação Nacional da Juventude da Articulação de Esquerda – tendência interna do PT


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